O Brasil é o país com o maior número de especialistas em todas as áreas de conhecimento. Ciência, política, economia, futebol... É impressionante a naturalidade com que nossos amigos enchem a boca pra manifestar suas opiniões, quase como certezas. Obviamente, os algoritmos das redes sociais são os grandes responsáveis por alimentá-las, promovendo o encontro entre pessoas que pensam da mesma forma. Aí já era... As certezas tornam-se quase axiomas...
Juntando essa característica ao fato do brasileiro médio enxergar diversos aspectos da vida de forma dicotômica (nada existe além do certo e do errado, do bem e do mal), somos cercados por uma legião de “Dunning-Krugers” vociferando seus rasos pontos de vista.
Um dos maiores e mais prejudiciais exemplos desse fenômeno está na falta de compreensão da macroeconomia e dos ciclos econômicos. Há um excelente vídeo feito por Ray Dalio que explica muito bem como seus ciclos curtos de 5 a 8 anos (pelo menos em países livres). O link para o vídeo está no fim do texto. Recomendo fortemente que assista.
Entender que esses movimentos são criados pela ação humana, independente da orientação ideológica de um governante, é um excelente começo. Claro que, a depender do tipo de política monetária adotada pelo governo (contracionista ou expansionista) e o respeito que o mesmo tem para manter o tripé macroeconômico e a austeridade fiscal, esses ciclos podem ser mais longos para baixo (recessão) ou para cima (crescimento).
Há outro aspecto importante: em raras ocasiões, um mandato começa no topo ou no pé de um ciclo. E as decisões tomadas por uma equipe econômica no curto prazo, normalmente demoram anos para se manifestarem nessa senoide ascendente ou descendente.
A vantagem é que, para entender se a condução econômica é/foi positiva ou negativa, temos os indicadores econômicos históricos. Essa é a grande vantagem: eles são amorais, apolíticos e não dão a mínima para o que você pensa. Simplesmente estão lá para serem consultados e servirem de base para a análise de um determinado período.
Vamos exercitar o senso crítico a partir de informações geopolíticas e estatísticas?
O primeiro ponto é que viemos passando nos últimos 30 meses por uma pandemia como não se via em quase um século e em 4 meses, por uma guerra inimaginável até alguns anos. Esses dois cisnes negros vêm afetando o crescimento mundial de forma muito significativa, pela quebra da cadeia de suprimentos, diminuição da capacidade produtiva entre outros aspectos.
Os governos precisaram injetar dinheiro na economia para que os mais vulneráveis tivessem o que comer e para que as empresas pudessem manter-se funcionando, pois de outra forma, haveria desemprego em massa e as consequências seriam muito piores do que de fatos passamos ou estamos passando.
Porém, injetar dinheiro na economia é um dos aspectos que gera inflação de preços. Somado à quebra repentina na cadeia de suprimentos global, temos o aumento no custo de produção e a consequente diminuição na oferta de produtos, o que... também gera inflação:
Nesse cenário, os governos devem adotar políticas contracionistas, aumentando a taxa básica de juros para tentar frear o consumo:
Isso, nas situações “normais de temperatura e pressão” costuma funcionar. Mas não trazem o efeito desejado quando o mundo ainda sofre impactos das crises sanitárias e diplomáticas e caso o lado fiscal do país não esteja equilibrado. Por lado fiscal, entenda déficit ou superávit primário e relação endividamento/Produto Interno Bruto:
Enquanto o mundo luta contra a inflação, o Brasil vivencia um cenário de deflação como demonstrou o indicador IPCA15 (-0,73% em agosto, menor índice da série histórica). Além do mais, no último boletim FOCUS tivemos queda em todos os indicadores de inflação por 8 a 13 semanas consecutivas:
O que essas informações podem dizer sobre o atual momento do Brasil?
A queda no gasto público, a tendência de queda inflacionária e outros aspectos não citados como a apreciação cambial e recorde na exportação de commodities, podem sinalizar que saímos da parte baixa do ciclo em direção à alta. Isso enquanto os países que possuem relações comerciais conosco, estão no início do ciclo contracionista, aumentando suas taxas de juros sem sinais de parada.
Ou seja, a depender de como o próximo governo conduzir a economia, bons ventos podem estar por vir.
Vejam que essa análise é simples mas não simplista. Basta um pouco mais de pragmatismo e menos de paixão. Ou, pensar com a cabeça ao invés do fígado, como dizia meu avô.
Por fim, recomendo que tente entender o básico da Economia. Assim não passará vergonha quando explicar o mundo com base numa notícia ou idolatrando seu político de estimação.