Quando o índice mercado sofre uma queda de 10%, uma das análises mais importante é determinar se estamos diante de uma correção temporária ou de uma queda sustentada. Se for apenas uma correção, pode ser uma boa oportunidade para utilizar recursos disponíveis e comprar na baixa. No entanto, caso seja um colapso, manter reservas em dinheiro pode ser mais estratégico para aproveitar preços ainda mais baixos no futuro. Este artigo explora os motivos pelos quais acredito que estamos enfrentando uma queda sustentada e por que não é o momento ideal para investir no mercado americano.
Um dos temas macroeconômicos mais debatidos atualmente são as tarifas comerciais. A decisão do presidente Donald Trump de impor tarifas retaliatórias a diversos países pode intensificar disputas comerciais já existentes, especialmente com a China. Um cenário otimista pressuporia que outros países reduzissem suas tarifas na expectativa de que os EUA fizessem o mesmo. No entanto, é mais provável que eles aumentem seu comércio entre si, excluindo os EUA. A Europa, por exemplo, pode intensificar suas compras de produtos chineses e obter energia do Canadá. Essa dinâmica pode gerar uma desaceleração econômica nos Estados Unidos.
Curiosamente, uma das causas da Grande Depressão de 1929 foi justamente a elevação de tarifas pelo governo americano. Contudo, o maior risco relacionado às tarifas atualmente é a inflação. Jerome Powell argumenta que essa inflação será transitória (como já ouvimos antes), mas, caso outros países não cedam à pressão dos EUA, a alta nos preços pode se manter. O resultado seria um cenário de “stagflation”, no qual o aumento das tarifas impulsiona a inflação, enquanto a redução do comércio global limita o crescimento do PIB.
Outro fator preocupante são as taxas de inadimplência. Elas estão atualmente em níveis superiores aos observados em 2008, o que é alarmante. Na crise financeira de 2008, os juros foram reduzidos rapidamente, mas o Federal Reserve pode não dispor dessa opção agora devido à inflação persistente e ao impacto inflacionário das tarifas. Isso também demonstra que os efeitos negativos do aumento das taxas de juros podem demorar a se manifestar. Por exemplo, o FED parou de elevar os juros no final de 2005, mas os impactos mais severos no mercado imobiliário só foram sentidos em 2007.
Diante desse cenário, é evidente que os riscos no mercado ainda não estão totalmente refletidos nos preços dos ativos. Diferente de uma correção temporária, que geralmente ocorre sem fundamentos macroeconômicos sólidos, a atual queda pode estar sendo impulsionada por fatores estruturais como o impacto dos juros elevados, o risco de uma nova crise financeira e a limitação do FED para intervir devido às políticas comerciais dos EUA. Além disso, essa crise pode marcar o fim dos prêmios elevados sobre as ações americanas, à medida que outros países reduzam sua dependência do comércio com os Estados Unidos.